Extraído na Integra da seção Magazine - Jornal Opopular dia 10/04.
Aos 76 anos, a goiana Yaciara Nara já publicou vários livros de cordel e também se aventurou por outros gêneros
Ana Cláudia Rocha
Ela se lembra muito bem do momento em que descobriu a literatura de cordel e se tornou escritora. "Foi às 3 horas da madrugada do dia 17 de março de 1981", responde prontamente Yaciara Nara, 76 anos. Mas por que tanta precisão? "Foi inesquecível", justifica.
A escritora, que também é artesã, conta que passava uns dias numa chácara nas redondezas de Goiânia para se refugiar da crise conjugal que vivia na época. Yaciara relata sua história entremeando fatos com pensamentos, versos e citações poéticas. "Durmo pouco para viver muito", diz, quando começa a se lembrar de seu primeiro contato com a escrita.
Em um sonho, ela viu uma portuguesa à beira de um riacho com um balaio de onde saíam pontas de roupas coloridas. A jovem recitou: "Caí com o balaio / Quebrei o tamanco / Mas continuei / Vestida de branco". "Parecia tão real que comecei a conversar com a portuguesa. Ela me disse que era um espírito desencarnado, que se chamava Maria de Souza Alves e que morava em Algarve", continua a escritora. Enquanto a personagem do sonho repetia os versos, Yaciara acordou e saiu pela casa procurando papel e caneta para escrevê-los.
Nascida em Anápolis em uma família com origens em Portugal e batizada com o nome de Dirce, trocado depois por Yaciara, a escritora viveu no interior de São Paulo e Minas Gerais antes de se mudar para Goiânia. A experiência daquele sonho despertou o desejo de escrever.
ogo ela se aventurou pela literatura de cordel, fazendo versos e imprimindo em mimeógrafo. "Eu escrevia, coloria os desenhos com lápis de cor, amarrava as folhas e vendia os livretos." As mensagens espirituais predominavam nas histórias. A escritora fazia uma média de 200 livros a cada tiragem. A renda tinha um destino: ajudar a construir o templo espírita Yucatã do Amanhecer, em Teresópolis. "Fico orgulhosa de saber que ajudei", destaca.
Yaciara afirma que não teve uma escola literária. "Ninguém me ensinou e eu só conhecia o cordel do Nordeste. Sou espiritualista e tudo na minha vida acontece através da intuição. Minha produção em cordel foi mais intuitiva. Acredito que o sonho foi uma mensagem para me ajudar a levantar daquela vida triste. A portuguesinha me disse que tínhamos uma missão a cumprir e que estaria sempre comigo", relata a escritora, que afirma ter se comunicado com a jovem por vários anos na década de 1980.
Superação
Para ela, a literatura teve uma grande importância na superação das dificuldades com o fim do casamento. "A literatura me ajudou muito. Em um contato com Chico Xavier, recebi uma mensagem de minha mãe que me orientava a procurar crescer com a oportunidade que a vida me dava."
Além de escrever - ela tem cerca de 20 obras já iniciadas e ainda não publicadas -, Yaciara gosta de ler. "Prefiro textos leves, alegres, com boas mensagens, que me fazem viajar. Não gosto de bandalheira ou de lugar-comum. O dia é curto para fazer tudo o que quero", ressalta, citando como seus preferidos os escritores goianos e irmãos Gilberto e José Mendonça Teles.
A literatura de cordel abriu as portas para Yaciara experimentar outras formas de escrever. O primeiro livro, Sensibilidade, foi publicado em 1986, com poemas de cunho ecológico, social e romântico. Depois vieram os livros Simplicidade, "falando de coisas da roça"; Brumas do Tempo, de crônicas; As Aventuras de Juca Matrero, com causos que já ilustraram cartões telefônicos e serviram de base para peças teatrais; Consequências de Um Grande Amor, parceria com outro escritor; Estorinhas da Vovó, infantil; As Aventuras de Juca Matrero - Causos do Cerrado; Gralha Azul, outro infantil, e Lembranças, de crônicas.
Ela também foi ghost writer, fez prefácios de livros e tem textos publicados em antologias pelo País. Com linguagem simples, Yaciara fala das experiências de vida, da natureza. "Costumo transformar a dor em poemas. Escrevo a tristeza contando com alegria", frisa a escritora, que aprendeu a ver que seu problema no casamento era menor do que pensava."A gente não consegue segurar a correnteza do rio na mão", filosofa, ao falar da separação.
Zé Gunia, de Yaciara Nara
Vou contar para vocês
uma estória singular.
Uma que nunca contei,
agora é que vou contar.
Preste bem atenção
para não embaralhar.
O cumpadre Zé Gunia
vivia a procurar,
uma moça de família
que era pra se casar.
Apareceu a Mariquinha
E garraram a namorar.
Zé Gunia chamegava
dia e noite, noite e dia,
Só tinha em sua cabeça
os chamegos de Maria.
Clareava e anoitecia
e ele nos braços de Maria.
Toma beijo de estalar
e muito abraço apertado,
mas sempre a mesma agonia.
Vinha mais um empurrão
que lhe dava a Maria
e ele caía sentado.
Como tudo neste mundo
tem sua hora e dia,
o pobre amigo João
completou sua ousadia
e "lá" levou sua mão
e veio a decepção.
Pois não é que a Maria
também era João?
E agora meu amigo,
preste bem mais atenção.
Se você gosta é de Maria,
pois tá assim de Maria João.
Não é nenhum preconceito
dessa amiga do cordel,
pois respeito todo mundo
e onde tiver o respeito,
a gente é sempre feliz
neste mundo de escarcéu!
E agora pra terminar
obrigada pela atenção.
Um recado vou deixar,
com carinho e emoção:
Deixa o João ser Maria
e Maria ser João, tá bão?
Grandes cordelistas
Leandro Gomes de Barros -Considerado o pai do cordel tal como o conhecemos hoje. Paraibano de Pombal, nasceu em 19 de novembro de 1865. Entre seus cordéis mais famosos estão O Rei dos Cangaceiros e O Punhal e A Palmatória. Morreu no Recife em 1918.
Francisco das Chagas Batista- Natural da Vila do Teixeira, Paraíba, onde nasceu em 1882, foi uma referência para o cordel mais elaborado. Entre seus feitos está o de ter versejado o romance Quo Vadis, adaptado o clássico Decameron e publicado Cantadores e Poetas Populares. Morreu em 1930.
José Camelo de Melo Rezende - Nascido em Pilõezinhos, Paraíba, em 1885, é autor de um do famoso cordel Pavão Misterioso, tornado público em 1923. O romance em cordel foi, primeiramente, atribuído, por razões políticas, a João Melquíades Ferreira da Silva. Morreu em 1964.
Manoel Camilo dos Santos - Mais um paraibano, nascido em Guarabira, foi poeta, xilogravurista e tipógrafo. São de sua autoria mais de 150 folhetos. Morreu em 1987, em Campina Grande, como um bem-sucedido empresário do ramo.
Francisco Sales Arêda -Um dos herdeiros do cordel tradicional, nasceu em Campina Grande em 1927. Seu primeiro cordel de sucesso foi O Casamento e Herança de Chica Pançuda e Bernardo Pelado. Algumas de suas obras ganharam releituras de autores como Ariano Suassuna. Morreu em 2005.
Do que os cordelistas falam
Santos e demônios - Os encontros entre o bem e o mal geralmente envolvem figuras sagradas do cristianismo e seus oponentes, quando não o próprio Jesus Cristo e o capeta. Personagens como Padre Cícero e Frei Damião também são bem assíduos nas histórias de cordel.
Cangaço - Lampião, Maria Bonita e outros cangaceiros do sertão são muito cantados em versos de cordel. Há histórias a favor e contra Virgulino Ferreira e seu grupo.
Política - O regime coronelista nordestino não passou e não passa incólume pelo cordel da região. Outras figuras populares do cenário nacional também sempre mereceram como Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e Lula.
Comportamento -As mudanças da sociedade foram registradas pelos cordéis, como a emancipação feminina e os modismos da juventude.
Mitos -Com a enorme influência dos romances de cavalaria e histórias medievais, histórias como as de Dom Sebastião, de Tristão e Isolda ou de Dom Quixote integram o universo do gênero.