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Goiânia : Domingo, 20 de Maio de 2012
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Poesia intuitiva.

Poesia intuitiva.

Extraído na Integra da seção Magazine - Jornal Opopular dia 10/04.

Aos 76 anos, a goiana Yaciara Nara já publicou vários livros de cordel e também se aventurou por outros gêneros

Ana Cláudia Rocha

Ela se lembra muito bem do momento em que descobriu a literatura de cordel e se tornou escritora. "Foi às 3 horas da madrugada do dia 17 de março de 1981", responde prontamente Yaciara Nara, 76 anos. Mas por que tanta precisão? "Foi inesquecível", justifica.

A escritora, que também é artesã, conta que passava uns dias numa chácara nas redondezas de Goiânia para se refugiar da crise conjugal que vivia na época. Yaciara relata sua história entremeando fatos com pensamentos, versos e citações poéticas. "Durmo pouco para viver muito", diz, quando começa a se lembrar de seu primeiro contato com a escrita.

Em um sonho, ela viu uma portuguesa à beira de um riacho com um balaio de onde saíam pontas de roupas coloridas. A jovem recitou: "Caí com o balaio / Quebrei o tamanco / Mas continuei / Vestida de branco". "Parecia tão real que comecei a conversar com a portuguesa. Ela me disse que era um espírito desencarnado, que se chamava Maria de Souza Alves e que morava em Algarve", continua a escritora. Enquanto a personagem do sonho repetia os versos, Yaciara acordou e saiu pela casa procurando papel e caneta para escrevê-los.

Nascida em Anápolis em uma família com origens em Portugal e batizada com o nome de Dirce, trocado depois por Yaciara, a escritora viveu no interior de São Paulo e Minas Gerais antes de se mudar para Goiânia. A experiência daquele sonho despertou o desejo de escrever.

ogo ela se aventurou pela literatura de cordel, fazendo versos e imprimindo em mimeógrafo. "Eu escrevia, coloria os desenhos com lápis de cor, amarrava as folhas e vendia os livretos." As mensagens espirituais predominavam nas histórias. A escritora fazia uma média de 200 livros a cada tiragem. A renda tinha um destino: ajudar a construir o templo espírita Yucatã do Amanhecer, em Teresópolis. "Fico orgulhosa de saber que ajudei", destaca.

Yaciara afirma que não teve uma escola literária. "Ninguém me ensinou e eu só conhecia o cordel do Nordeste. Sou espiritualista e tudo na minha vida acontece através da intuição. Minha produção em cordel foi mais intuitiva. Acredito que o sonho foi uma mensagem para me ajudar a levantar daquela vida triste. A portuguesinha me disse que tínhamos uma missão a cumprir e que estaria sempre comigo", relata a escritora, que afirma ter se comunicado com a jovem por vários anos na década de 1980.

Superação

Para ela, a literatura teve uma grande importância na superação das dificuldades com o fim do casamento. "A literatura me ajudou muito. Em um contato com Chico Xavier, recebi uma mensagem de minha mãe que me orientava a procurar crescer com a oportunidade que a vida me dava."

Além de escrever - ela tem cerca de 20 obras já iniciadas e ainda não publicadas -, Yaciara gosta de ler. "Prefiro textos leves, alegres, com boas mensagens, que me fazem viajar. Não gosto de bandalheira ou de lugar-comum. O dia é curto para fazer tudo o que quero", ressalta, citando como seus preferidos os escritores goianos e irmãos Gilberto e José Mendonça Teles.

A literatura de cordel abriu as portas para Yaciara experimentar outras formas de escrever. O primeiro livro, Sensibilidade, foi publicado em 1986, com poemas de cunho ecológico, social e romântico. Depois vieram os livros Simplicidade, "falando de coisas da roça"; Brumas do Tempo, de crônicas; As Aventuras de Juca Matrero, com causos que já ilustraram cartões telefônicos e serviram de base para peças teatrais; Consequências de Um Grande Amor, parceria com outro escritor; Estorinhas da Vovó, infantil; As Aventuras de Juca Matrero - Causos do Cerrado; Gralha Azul, outro infantil, e Lembranças, de crônicas.

Ela também foi ghost writer, fez prefácios de livros e tem textos publicados em antologias pelo País. Com linguagem simples, Yaciara fala das experiências de vida, da natureza. "Costumo transformar a dor em poemas. Escrevo a tristeza contando com alegria", frisa a escritora, que aprendeu a ver que seu problema no casamento era menor do que pensava."A gente não consegue segurar a correnteza do rio na mão", filosofa, ao falar da separação.

 


Zé Gunia, de Yaciara Nara

Vou contar para vocês

uma estória singular.

Uma que nunca contei,

agora é que vou contar.

Preste bem atenção

para não embaralhar.

O cumpadre Zé Gunia

vivia a procurar,

uma moça de família

que era pra se casar.

Apareceu a Mariquinha

E garraram a namorar.

Zé Gunia chamegava

dia e noite, noite e dia,

Só tinha em sua cabeça

os chamegos de Maria.

Clareava e anoitecia

e ele nos braços de Maria.

Toma beijo de estalar

e muito abraço apertado,

mas sempre a mesma agonia.

Vinha mais um empurrão

que lhe dava a Maria

e ele caía sentado.

Como tudo neste mundo

tem sua hora e dia,

o pobre amigo João

completou sua ousadia

e "lá" levou sua mão

e veio a decepção.

Pois não é que a Maria

também era João?

E agora meu amigo,

preste bem mais atenção.

Se você gosta é de Maria,

pois tá assim de Maria João.

Não é nenhum preconceito

dessa amiga do cordel,

pois respeito todo mundo

e onde tiver o respeito,

a gente é sempre feliz

neste mundo de escarcéu!

E agora pra terminar

obrigada pela atenção.

Um recado vou deixar,

com carinho e emoção:

Deixa o João ser Maria

e Maria ser João, tá bão?


Grandes cordelistas

Leandro Gomes de Barros -Considerado o pai do cordel tal como o conhecemos hoje. Paraibano de Pombal, nasceu em 19 de novembro de 1865. Entre seus cordéis mais famosos estão O Rei dos Cangaceiros e O Punhal e A Palmatória. Morreu no Recife em 1918.

Francisco das Chagas Batista- Natural da Vila do Teixeira, Paraíba, onde nasceu em 1882, foi uma referência para o cordel mais elaborado. Entre seus feitos está o de ter versejado o romance Quo Vadis, adaptado o clássico Decameron e publicado Cantadores e Poetas Populares. Morreu em 1930.

José Camelo de Melo Rezende - Nascido em Pilõezinhos, Paraíba, em 1885, é autor de um do famoso cordel Pavão Misterioso, tornado público em 1923. O romance em cordel foi, primeiramente, atribuído, por razões políticas, a João Melquíades Ferreira da Silva. Morreu em 1964.

Manoel Camilo dos Santos -  Mais um paraibano, nascido em Guarabira, foi poeta, xilogravurista e tipógrafo. São de sua autoria mais de 150 folhetos. Morreu em 1987, em Campina Grande, como um bem-sucedido empresário do ramo.

Francisco Sales Arêda -Um dos herdeiros do cordel tradicional, nasceu em Campina Grande em 1927. Seu primeiro cordel de sucesso foi O Casamento e Herança de Chica Pançuda e Bernardo Pelado. Algumas de suas obras ganharam releituras de autores como Ariano Suassuna. Morreu em 2005.

Do que os cordelistas falam

Santos e demônios -  Os encontros entre o bem e o mal geralmente envolvem figuras sagradas do cristianismo e seus oponentes, quando não o próprio Jesus Cristo e o capeta. Personagens como Padre Cícero e Frei Damião também são bem assíduos nas histórias de cordel.

Cangaço - Lampião, Maria Bonita e outros cangaceiros do sertão são muito cantados em versos de cordel. Há histórias a favor e contra Virgulino Ferreira e seu grupo.

Política - O regime coronelista nordestino não passou e não passa incólume pelo cordel da região. Outras figuras populares do cenário nacional também sempre mereceram como Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e Lula.

Comportamento -As mudanças da sociedade foram registradas pelos cordéis, como a emancipação feminina e os modismos da juventude.

Mitos -Com a enorme influência dos romances de cavalaria e histórias medievais, histórias como as de Dom Sebastião, de Tristão e Isolda ou de Dom Quixote integram o universo do gênero.

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